Saúde

Rastreamento do câncer de colo do útero deve mudar na era da vacina, aponta estudo global
Modelagem com dados dos EUA indica menos exames para mulheres vacinadas sem perda de eficácia — e até redução de morte
Por MaisConhecer - 17/04/2026


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Um abrangente estudo internacional publicado nesta sexta-feira (17), na revista The Lancet Regional Health – Americas, propõe uma mudança estrutural nas políticas de rastreamento do câncer de colo do útero: mulheres vacinadas contra o HPV poderiam — e deveriam — realizar menos exames ao longo da vida, sem comprometer a prevenção da doença. A pesquisa, liderada por Daniël D. de Bondt e Kate T. Simms, reúne cientistas de instituições como o Erasmus Medical Center, a University of Sydney e a Harvard T.H. Chan School of Public Health.

Baseado em três modelos matemáticos independentes, o trabalho analisou 92 estratégias de rastreamento em diferentes gerações de mulheres nos Estados Unidos — desde aquelas que nunca tiveram acesso à vacina até as mais jovens, protegidas por versões mais avançadas do imunizante contra o papilomavírus humano (HPV), principal causador da doença.

O resultado é direto: o modelo mais eficiente e custo-efetivo para todas as populações é o teste primário de HPV, substituindo progressivamente o tradicional exame citológico (Papanicolau). Mas o ponto central vai além: a frequência desses exames pode — e deve — variar conforme o histórico vacinal.

“Mostramos que é possível reduzir a intensidade do rastreamento em mulheres vacinadas, mantendo ou até ampliando os benefícios em saúde pública”, afirma de Bondt. Segundo ele, a prática atual ignora uma mudança epidemiológica relevante: “Hoje convivem, no mesmo sistema de saúde, mulheres com riscos completamente diferentes”.

Menos exames, mais eficiência

Os pesquisadores simularam três grupos: mulheres nascidas em 1980 (não vacinadas), em 1993 (com acesso às primeiras vacinas) e em 2003 (protegidas pela vacina nonavalente, mais abrangente). A análise considerou idade de início dos exames, intervalos entre testagens e tipos de triagem.

Para mulheres não vacinadas, a estratégia ideal continua sendo o teste de HPV a cada cinco anos a partir dos 25. Já para aquelas parcialmente vacinadas, o intervalo pode subir para oito anos. E, entre as mais jovens — com maior proteção —, o rastreamento poderia ocorrer apenas a cada dez anos, começando por volta dos 27.

“É uma mudança de paradigma”, resume Karen Canfell, coautora do estudo. “Historicamente, quanto mais exames, melhor. Mas nossos dados mostram que, em determinados grupos, isso não só é desnecessário como pode gerar danos.”

Custos (eixo x) e anos de vida ganhos (AVG) (eixo y), ambos descontados a 3%, das estratégias de rastreio na fronteira de custo-efetividade, por coorte de nascimento e modelo utilizado. Cada marca representa uma estratégia de rastreio diferente (consulte as Tabelas Suplementares S2–S4 ). Círculos laranja para a Política 1 - Colo do Útero, triângulos azuis para STDSIM-MISCAN e quadrados vermelhos para o modelo de Harvard. As marcas pretas refletem estratégias com uma razão custo-efetividade incremental (RCEI) entre US$ 50.000 e US$ 200.000 por AVG. ..

Esses danos incluem procedimentos invasivos, como colposcopias e tratamentos de lesões pré-cancerosas, que podem ser evitados com protocolos mais espaçados. Em mulheres vacinadas, o estudo aponta reduções de até 87% nesses procedimentos, além de quedas significativas na incidência e mortalidade por câncer cervical.

Contexto histórico e avanço científico

Desde a introdução da vacina contra o HPV, em 2006, mais de 100 países passaram a adotá-la em programas nacionais. Nos Estados Unidos, cerca de 54,5% dos adolescentes estavam completamente vacinados em 2020. A versão mais recente do imunizante protege contra tipos de HPV responsáveis por até 90% dos casos de câncer cervical.

Apesar desse avanço, as diretrizes de rastreamento pouco evoluíram. Atualmente, recomenda-se que mulheres entre 21 e 65 anos realizem exames regulares, independentemente do histórico vacinal — uma abordagem que, segundo o estudo, já não reflete a realidade epidemiológica.

“A medicina preventiva precisa acompanhar a ciência”, afirma Jane J. Kim, coautora. “Manter o mesmo protocolo para todas as mulheres significa desperdiçar recursos e potencialmente causar intervenções desnecessárias.”


A adoção de diretrizes diferenciadas, no entanto, enfrenta obstáculos. Um deles é a dificuldade de implementar políticas personalizadas sem sistemas robustos de registro vacinal. Outro é a resistência de formuladores de políticas, que demandam evidências sólidas antes de alterar recomendações consolidadas.

Ainda assim, o estudo reforça uma tendência global: a transição para o rastreamento baseado em HPV. Segundo os autores, essa mudança poderia acelerar a eliminação do câncer de colo do útero nas próximas décadas — objetivo já projetado entre 2038 e 2046 nos EUA.

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Além disso, a pesquisa sugere que adaptar o rastreamento por geração — e não por indivíduo — pode ser uma solução prática. “Ajustar as recomendações por ano de nascimento é uma estratégia viável e baseada em evidências”, diz Inge M. C. M. de Kok.

Um novo equilíbrio entre risco e prevenção

Ao propor menos exames para parte da população, o estudo não defende negligência, mas precisão. A lógica é simples: quanto menor o risco, menor a necessidade de intervenção — desde que a vigilância seja mantida de forma inteligente.

Para especialistas, o desafio agora é traduzir esses achados em políticas públicas. Em países como o Brasil, onde a cobertura vacinal ainda é desigual, a aplicação dessas diretrizes exigiria cautela e adaptação.

Ainda assim, o recado é claro: a era da vacinação em massa contra o HPV exige uma revisão profunda das estratégias de prevenção. E, paradoxalmente, menos pode ser mais — inclusive na luta contra um dos cânceres mais preveníveis do mundo.


Referência
Estratégias ideais de rastreio do câncer do colo do útero em grupos de mulheres não vacinadas e vacinadas contra o HPV nos Estados Unidos: uma análise abrangente de modelagem comparativa. The Lancet Saúde Regional – AméricasVol. 58 101474 Publicado em: 17 de abril de 2026. Daniël D. de Bondt, Kate T. Simms, Emi Naslazi, James Killen, Jane J. Kim, Jan AC Honteleze outros. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101474

 

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